domingo, 15 de maio de 2011

Os Agentes do Destino (2011)

“Os Agentes do Destino” (Adjustment Bureau, 2011) é baseado no conto The Adjustment Team (1954), de Philip K. Dick (1928-1982), que já rendeu filmes intrigantes tais como “Blade Runner” e “Minority Report”, mas talvez o grande defeito aqui seja filme usar apenas uma sombra da premissa da obra original. Para Hollywood, o autor, que escrevia influenciado por drogas e via com enorme pessimismo o futuro, é excelente fonte de idéias, mas o desenvolvimento delas é sempre amainado em prol da abrangência de público.


Talvez o grande defeito do produtor e roteirista George Nolfi,que estréia na direção, tenha sido transformar a historia em um romance adocicado, do que uma ficção cientifica paranóica e contestadora digna de Philip K. Dick.


Nolfi tenta propor uma discussão sobre determinismo e livre arbítrio, mas apenas aranha a superfície, tentando agradar o grande publico.


O filme começa logo depois do congressista David Norris (Matt Damon), perder a eleição após a publicação de fotos do seu passado, e antes do discurso de agradecimento ele conhece no banheiro a bela bailaria Elise Sellas (Emily Blunt). Na manhã seguinte após este encontro casual e promissor, ao chegar ao escritório David descobre seus colegas paralisados por um grupo de engravatados de chapéu. Este fato ocorreu por uma falha do agente ou anjo, encarregado de atrasar David literalmente “dormiu no ponto”.
Começa então uma corrida entre o político e esses "agentes do destino", que são categóricos ao afirmar: ele jamais poderá entrar em contato com a mulher novamente, já que jamais deveria tê-la encontrado, e que isto é uma decisão do comandante que tem outros planos para David.


Há algumas boas cenas, como a perseguição usando os portais de atalho, que brinca com a percepção de espaço e a claustrofobia dos espaços exíguos de Manhattan, infelizmente o filme se foca na  relação entre David e Elise e a subsequente discussão sobre predestinação e amor. Não é um filme para puristas de ficção científica e muito menos para os fãs de K. Dick, mas uma sci-fi para ver ao lado da mulher amada, que com certeza vai gostar, uma vez que são poucas as mulheres fãs de sci-fi.

Minhas Mães e Meu Pai (2010)

Filme sobre famílias disfuncionais sempre renderam ótimos dramas, mas aqui temos uma versão mais cômica do assunto, e uma boa comedia que concorreu a 4 Oscars.

Dirigido pela roteirista e diretora Lisa Cholodenko, o filme aborda o relacionamento de Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore), casadas há quase 20 anos, e que conceberam os seus dois filhos, Laser (Josh Hutcherson) e Joni (Mia Wasikowska), por inseminação artificial. Joni vai completar 18 anos, está na hora de se mudar para o campus da faculdade, e por legislação já tem idade para solicitar à clínica médica os dados do homem que doou o esperma. É Laser quem implora a Joni para procurá-lo. Os adolescentes descobrem então Paul (Mark Ruffalo), e a ordem na família vira de cabeça para baixo, com direito a brigas e traições.

O filme não tem grandes pretensões, não se aprofunda em nenhum tema aborda tudo de maneira rasa, mas divertida. Quem esta ótimo é Mark Ruffalo como o típico self-made man, adepto do amor inter-racial e dono de um restaurante que tem a sua própria horta de orgânicos.
Apontar o dedo para a aparente normalidade da família americana - neste caso, o modelo moderno de família - não é novidade no cinema independente de Hollywood. O trunfo de "Minhas Mães e Meu Pai" é o seu elenco. Annette Bening encontra o tom certo da lésbica masculinizada e Julianne Moore, como sempre, traz fragilidade para a composição de sua personagem. É Julianne o norte do filme, enquanto Ruffalo nunca fez tão bem o seu recorrente papel de homem sensível ideal.

“Minhas Mães e Meu Pai” é um filme leve para se assistir em uma tarde preguiçosa, não contribui para o intelecto, mas também não zomba dele como um monte de comedia  bobas que aparecem todos os dias. 

Copia Fiel (2010)

Se  nos anos 90 você se encantou com o cultuado “Antes do Amanhecer” de Richard Linklater, você com certeza vai gostar de “Copia Fiel”, que pode ser considerado uma versão para adultos do filme de Linklater, longe do universo da cultura pop que povoava os inspirados diálogos entre os jovens atores, aqui as discussões aqui são bem mais intelectuais.


Em seu primeiro filme rodado fora do Irã, o mais importante cineasta do país, Abbas Kiarostami,em parceria com a estrela francesa Juliette Binoche nos presenteia com uma obra inteligente e belamente filmada na Toscana, que discute a vida, a arte e o amor de forma adulta e inventiva.


No inicio de “Copia Fiel”, o escritor inglês James Miller (William Shimell) argumenta que se a qualidade uma obra de arte depende do contexto e está nos olhos de quem a vê, então uma falsificação pode ter a mesma validade do original e assim a decisão é do espectador.
James Miller precisa voltar para a Inglaterra, mas antes aceita de Elle (Juliette Binoche), uma francesa dona de galeria que há anos vive na Itália com seu filho, um convite para passear pelas ruazinhas da comuna de Lucignano.Elle discorda de vários tópicos abordados no livro de James, e de uma conversa que inicia de forma cerimoniosa, vamos sendo arrastados  para um debate sobre a autenticidade e a relação entre o original e a copia no mundo da arte.
 Passando por um café, Elle acaba iniciando uma conversa com a dona do café, o dialogo entre elas abre o espectro da situação a possibilidades até então impensadas e os dois são confundidos como marido e mulher, e por brincadeira passam a encenar esses papéis. O momento dessa virada é essencial nesta segunda etapa onde o diretor uma situação até aquele momento bem natural por um intrigante jogo de espelhos. Só então percebemos que fomos colocados numa casa de espelhos, desta de parque de diversão, onde o reflexo nem sempre é uma reprodução da realidade. É como se atravessassem um portal para o neo-realismo. A conversa entre o casal toma rumos inesperados e faz surgir a verdadeira natureza daquela discussão cultural.


Kiarostami disse em entrevista que cada um deve interpretar a obra como quiser, mas é inegável que duas obsessões de sua cinematografia iraniana seguem preservadas aqui: as mulheres e o tempo. E se o diretor apega-se ao close-up de Juliette Binoche, que nunca esteve tão bonita e tão vulnerável, que apresenta uma vitalidade muito rara e preciosa. Tudo nela é real, do cansaço físico fruto da rotina diária, passando pela alegria de compartilhar a felicidade alheia, até a frustração diante do olhar apaixonado, mas não retribuído.


Não deixe de ver!

sábado, 14 de maio de 2011

Ao entardecer (2007)

“Ao Entardecer” me fez pensar na vida, quanto mais avançamos na idade mais nos pegamos pensando nas escolhas, nas decisões, no que foi priorizado e, principalmente, abdicado E este filme tem este sentido, fazer pensar, quando nos são apresentadas as lembranças e escolhas do passado de uma pessoa à beira da morte. 
Baseado na obra de Susan Minot, o filme mostra a sempre excelente Vanessa Redgrave, como Ann, já idosa, doente e não tão lúcida. Observada de perto pelas duas filhas, Nina (Toni Collette) e Constance (Natasha Richardson, filha de Redgrave na vida real), e uma enfermeira, ela começa a falar coisas que parecem sem nexo, e a fazer referência a pessoas de um passado completamente desconhecido para sua família. 
No início não sabemos se trata-se de algo real ou apenas ilusão, mas logo a história se esclarece. Em flashbacks, o diretor Lajos Koltai (cinematógrafo experiente, mas apenas em seu segundo longa como diretor) revela quem são os personagens do passado de Ann e a história marcante que, à beira da morte, volta à sua memória.
Ao acompanharmos a trajetória de Ann, que se desenrola quase somente em um final de semana mas que marca profundamente sua vida e das pessoas que lá estão, nos leva a refletir que há momentos na vida que são decisivos para os rumos que o futuro tomará.
 “Ao entardecer” nos faz ver que há momentos cruciais na vida e as decisões tomadas terão um preço no futuro. Enfim, este é um filme que, embora não tenha tantas qualidades como cinema, tem o mérito de uma boa história, que faz o espectador repensar suas próprias escolhas em situações como essas, que de uma forma ou de outra mudam a vida.
Veja!

domingo, 8 de maio de 2011

O Ritual (2011)

Se você espera ver muito sangue, corpos deformados, etc. “O Ritual” não vai satisfazer suas necessidades. Este sim é um filme digno de estar na lista dos bons filmes que falam sobre o tema exorcismo, ou melhor, o filme pretende mostrar justamente o outro lado dos rituais exorcistas católicos que são usados ainda hoje em dia pela igreja. O fato é que o diabo fica em segundo plano, porque é mais drama do que terror. E isso o espectador fã do gênero “gore” não costuma perdoar,tanto que o filme teve uma péssima recepção nos USA.

Baseado no livro não ficção The Rite, de Matt Baglio, um jornalista que conviveu com tais clérigos especializados em expulsar o mal, decidiu escrever um livro relatando as experiências do citado padre, Gary Thomas, quando foi alardeado que a Santa Sé visava colocar um exorcista em cada uma de suas dioceses. Segundo ele, existem atualmente nos EUA 15 padres autorizados a fazer exorcismos e que tudo que se mostrar no filme como ritual e comportamento é absolutamente real.

O diretor Mikael Håfström foi muito infeliz na escolha do pouco conhecido Colin O'Donoghue, para viver o papel de Michael Novak, um jovem de origem humilde que vai para o seminário porque assim pode ter uma educação melhor, só que não tem fé e pensa em largar o convento. Mas sob ameaça de seu superior é enviado para Itália estudar sobre exorcismo. Lá o protagonista conhece um dos únicos exorcistas em atividade, o Padre Lucas, e começa assim mais um round do eterno embate entre o bem e o mal, a fé e o ceticismo, a ciência e a religião.

Estão no elenco Alice Braga, com a competência habitual, faz as vezes de Baglio como uma jornalista que segue o personagem principal. Colocar os excelentes Ciarán Hinds (Padre Xavier), Toby Jones (Padre Matthew) e Rutger Hauer (o pai de Michael) em papéis secundários também ajuda a elevar a qualidade do jogo. Mas é mesmo Anthony Hopkins que rouba a cena. O ator volta a velha forma e  está inspiradíssimo, surtado, ora engraçado, ora assustador, como o Padre Lucas, pena que ele só entre em cena após meia hora de filme.

De qualquer maneira, o diabo em “O Ritual” é presente, sim, mas como um oponente intelectual. Suas respostas e debates são instigantes, e como explica o Padre Lucas - "Não espere cabeças girando ou sopa de ervilha jorrando", fazendo piada com o grande clássico “O Exorcista”. Sem grandes cenas chocantes e poucos sustos fáceis, faz de “O Ritual” um filme recomendável.

domingo, 1 de maio de 2011

ASSASSINO A PREÇO FIXO (2011)

Trata-se de uma refilmagem de um trabalho homônimo de 1972, que tinha Charles Bronson no papel título. Agora, sai Bronson e entra Jason Statham, astro da vez do cinema pancadaria e da franquia Carga Explosiva. Ele vive Arthur Bishop, assassino profissional de máxima competência que recebe a missão mais difícil de sua carreira: matar seu grande amigo, mentor e patrão Harry (o premiado veterano Donald Sutherland, grande ator que sempre rouba as cenas nos filmes em que atua). A situação se complica quando Bishop entra em contato com Steve (Ben Foster), filho de Harry e num ato de redenção resolve tomar Steve como seu pupilo e ambos passam a trabalhar juntos.É do personagem de Bem Foster a seqüência de luta mais incrível do filme.

“Assassino a Preço Fixo” cumpre o que promete para quem assisti-lo: é eficiente nas cenas de ação, tiroteio e pancadaria. No mais, é um bem orquestrado bandido mata bandido.

Sem nenhuma pretensão, é um filme feito especialmente para quem  deseja de uma sessão de cinema nada além de entretenimento e diversão.

Incêndios (2010)

Quando 1+1 é igual a 1, esta é a resposta para “Incêndios”, filme canadense que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano.

“Incêndios” é baseado na história do dramaturgo libanês Wajdi Mouwad, dirigido pelo cineasta Denis Villeneuve e estrelado pela belga Lubna Azabal. Ela interpreta maravilhosamente a protagonista, Nawal Marwan, enredada numa trágica história, unindo amor e política no Oriente Médio.

O enredo tem seu ponto de partida no Canadá, onde um tabelião, Jean Lebel (Rémy Girard, de "As Invasões Bárbaras"), convoca ao seu escritório os irmãos gêmeos Simon (Maxim Gaudette) e Jeanne Marwan (Mélissa Désormeaux-Poulin) para a leitura do testamento da mãe, Nawal.

Nawal deixou expressa uma estranha condição - que seu sepultamento não seja completado antes que os filhos entreguem duas cartas. Uma, para um irmão, cuja existência desconheciam. Outra para o pai, que julgavam morto.

Esta jornada em busca de respostas é bifurcada e duplamente fascinante, e os leva a um pais do oriente médio que nunca é identificado, dando uma universalidade aos fatos que vamos acompanhar.A história é entrecortada de flashbacks do passado da mãe e uma narrativa arrebatadora. Nesta viagem vamos ter contato com sentimentos intensos e experiências brutais e os irmãos (bem como o espectador) terão um processo de descoberta tão penoso quanto o calvário que viveu Marwan. Aos poucos a história vai desnudando aos nossos olhos uma mulher admirável, que mesmos nos momentos mais difíceis não dobrou o seu espírito.

Outra grande sacada de Villeneuve é não situar o tempo, o lugar ou a guerra que se desenrola ali, pois a mensagem é um alerta aos horrores, as intolerâncias e conseqüências dos conflitos entre os povos.

“Incendios” comprova que não são necessários uma penca de efeitos especiais, astros e muito dinheiro para fazer um grande filme, precisamos sim de uma grande história.

Não deixe de ver!