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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

DISTRITO 9 em Blu-ray

DISTRITO 9 (District 9), foi uma das grandes surpresas cinematográficas de 2009, esta produção de  Peter Jackson teve um baixo orçamento para um filme do gênero – custou apenas  30 milhões de dólares, um valor irrisório para Hollywood, e arrecadou esta quantia apenas no seu fim de semana de estreia. Beneficiado por críticas e propaganda boca a boca mais do que positivas, o longa tornou-se um sucesso artístico e comercial, obtendo três indicações ao Oscar 2010.

A parceria entre o produtor Peter Jackson e do diretor Neill Blomkamp resultou num dos filmes de ficção científica mais original dos últimos anos.

O filme com excelentes efeitos especiais e realismo impactante, trata do primeiro contato da humanidade com extraterrestres, que chegam a Terra aparentemente sem meios de retornar para seu mundo e acabam tendo de coexistir com a humanidade, exilados em uma favela nos limites de Johanesburgo, na África do Sul. Depois de tomar conhecimento do misterioso segredo da tecnologia bélica extraterrestre, um solitário humano (Sharlto Copley) passa a ser caçado pelas imundas vielas da favela alienígena e descobre o que significa ser um completo estranho em seu próprio planeta.

Através deste argumento Neill Blomkamp acaba referência direta a aspectos históricos e políticos da segregação racial que por décadas imperou na África do Sul, o que ganha força adicional pelo fato de o filme se passar em Johanesburgo e ser dirigido por um sul-africano. O diretor adota um estilo de falso documentário, e assim descobrimos, através de depoimentos “reais”, que a nave mãe dos ETs surgiu sobre Johanesburgo nos anos 1980, com seus tripulantes em péssimas condições de saúde. Como imigrantes ilegais, as criaturas foram confinadas na favela miserável chamada Distrito 9, onde vivem em condições precárias e são explorados por criminosos nigerianos.

DISTRITO 9 é um filme inteligente, provocante,  tecnicamente impecável com segmentos que não ficam nada a dever aos melhores filmes de ação de Hollywood. Se você o perdeu quando foi exibido nos cinemas, não deixe passar a oportunidade de vê-lo agora em casa, especialmente na alta definição do Blu-ray, uma vez que o filme foi rodado com a nova câmera de ultra definição (4K) “Red One”, possuindo uma imagem excelente, que coloca você bem no meio do ensolarado e estranho ambiente do Distrito 9.
Sobre o  Blu-ray

DISTRITO 9 é distribuído pela Sony. E segundo informações foi originalmente autorado para o mercado europeu, assim além de trazer ótimos extras todos legendados em português do Brasil, o Blu-ray é de um primor técnico impar. O espectador já consegue vislumbrar o capricho do BD capricho já no carregamento dos menus animados, onde você tem de optar pelo ícone “humano” ou “alienígena”. De acordo com a escolha, temos visuais diferentes nos menus. Como o filme foi rodado em alta definição de última geração, o que se reflete na espetacular imagem proporcionada na transferência anamórfica 1080p/AVC MPEG-4 na proporção original de tela 1.85:1.  As cores são vibrantes e firmes, nesta bela transferência HD que pode ser considerada de referência.
 A qualidade do áudio é de primeira e temos mixagens Dolby Digital 5.1 nos idiomas espanhol, russo e ucraniano, e DTS-HD 5.1 Master Áudio em inglês e português.

 Os Extras

Se o Blu-ray de DISTRITO 9, na parte técnica, é excelente, também no que toca a extras merece elogios. E tudo está em alta definição (HD) e exceto pelos trailers, com legendas em português – inclusive o comentário em áudio.

· BD Live;
· Comentários do Diretor e Coautor Neill Blomkamp ;
· Johanesburgo Vista de Cima: Imagens de Satélite e Mapas de Distrito 9.;
· Cenas Excluídas (23:28min.) ;;
· A Agenda Alienígena: Diário do Cineasta (34:19min.) ;
· Metamorfose – A Transformação de Wikus (9:52min.) ;
· Inovação: A Atuação dos Atores e Improvisações em Distrito 9 (12:05min.) ;
· Concepção e Design: Criação do Mundo de Distrito 9 – (13:18min) ;
· Geração Alienígena: Efeitos Visuais em Distrito 9 (10:18min.) ;
· Trailers – Trailers de outros lançamentos da Sony em Blu-ray.

Livraria Catarinense

domingo, 1 de dezembro de 2013

Apos 30 anos Vidas sem Rumo ganha bela versão em Blu-ray

Em um subúrbio da pequena cidade de Tulsa, Oklahoma, Ponyboy Curtis (C. Thomas Howell) é o caçula de uma turma, formada ainda por Darrel Curtis (Patrick Swayze) e Sodapop Curtis (Rob Lowe). Os três órfãos tentam sobreviver onde tudo se restringe a "mexicanos pobres" e "ricaços". A trinca descende de mexicanos, amarga empregos em postos de gasolina e sofre com a perseguição da polícia. Também fazem parte da gangue Dallas Winston (Matt Dillon) e Johnny Cade (Ralph Macchio), ainda um projeto de marginal. Eles tentam vencer e amadurecer enfrentando os ricos, mas nem tudo acontece como eles planejam. Os acontecimentos são vistos pela ótica Ponyboy, que gosta de poesia e "...E o Vento Levou".

Em Vidas Sem Rumo Coppola conseguiu um feito de reunir C. Thomas Howell, Matt Dillon, Ralph Macchio, Patrick Swayze, Rob Lowe, Tom Cruise e Emilio Estevez, e só quem viveu nos anos 80 pode entender a amplitude deste façanha. Não que na época, eles já fossem ídolos, estavam apenas começando. Mas, ao adaptar o livro The Outsider, Coppola não apenas lhes deu uma chance de suas vidas, como demonstrou uma visão incrível de quais seriam os nomes da próxima geração de Hollywood,principalmente, Tom Cruise, que fazia apenas uma ponta na trama, mas se tornou um dos maiores astros de Hollywood.
Por não ter sido um filme com apelo comercial lembro que vi o filme na sessão de Arte do Cine Busch, que meu falecido pai lutava para manter e assim dar oportunidade a comunidade Blumenauense de ver filmes do circuito alternativo.Eu devia ter entre 23 ou 24 anos quando Vidas sem Rumo (mais conhecido no seu título original, The Outsiders), o mesmo foi lançado no Brasil em julho de 1984. Naquela época, os filmes chegavam no Brasil com certo atraso e em Blumenau nem se fala. Vidas sem Rumo é de 1983 e completou trinta anos em março, quando estreou nos cinemas americanos. Lembro que assisti a este belo drama dirigido por Francis Coppola e muito mexeu comigo. Ao revê-lo, recentemente em Blu-ray, percebi que algumas coisas ficaram marcadas para sempre, como o cabelo tingido de loiro do personagem Ponyboy ou ótimo casting que o realizador escolheu. Quase todos os atores viraram astros ou, em algum momento de suas carreiras, tiveram seu lugar ao sol.
Vidas Sem Rumo, apesar de tratar de temas fortes, como discriminação, pobreza e racismo, o roteiro do filme é bastante poético, ingênuo até. Isso devido à escolha da visão do narrador, o protagonista Ponyboy, que é mesmo um garoto bastante ingênuo e sensível. Adora poesia e "E O Vento Levou", não apenas o filme, mas, principalmente o livro, que carrega em boa parte da trama consigo, tendo momentos em que o lê para o amigo Johnny. Então, apenas acompanhamos essa trajetória sem muito rumo ou sentido mesmo. Apenas uma história de descoberta em uma fase-chave da vida. 

Bem amigo leitor e o Blu-ray de Vidas sem Rumo, é o que posso dizer um item de colecionador. Diferente da versão que vi no cinema a Universal fez uma belíssima restauração e você pode curtir as cores da belíssima fotografia nesta na versão em Blu-ray. Outro ponto forte é o som e a imagem, que foram remasterizados, têm qualidade infinitamente superior à projeção das salas dos anos 80. Segundo: Coppola, em 2005, decidiu acrescentar 23 minutos ao filme original, dando à trama um ganho emocional e familiar que havia sido extraído do corte final. Esta é versão que saiu em Blu-ray denominada Edição do Colecionador, que, além da nitidez impressionante por causa da alta definição, traz de volta a luz da belíssima fotografia.

Os extras também são muito bacanas, embora não tenha nenhum material inédito para o Blu-ray. Mas é delicioso ver como os atores C. Thomas Howell, Ralph Macchio, Patrick Swayze e Diane Lane reagiram ao ver a nova versão de Vidas sem Rumo, mais de vinte anos depois das filmagens – e num projetor numa sala da mansão de Coppola.




sábado, 30 de novembro de 2013

POSSUÍDOS (1998) - Blu-ray

Após a execução do serial killer Edgar Reese (Elias Koteas) na câmara de gás, o policial e detetive John Hobbes (Denzel Washington) acredita que parte dos seus problemas terminaram, mas logo repara que pessoas na rua cantam a mesma melodia, Time Is On My Side, dos Rolling Stones, que o criminoso cantou na sua execução. A partir desse ponto, o policial conclui que todos estavam possuídos por Azazel, um anjo amaldiçoado que não tem forma mas que com um simples toque consegue penetrar em quase todas os seres vivos. Quando Hobbes é forçado a m
atar um professor, que estava possuído pelo espírito, fica claro que ele precisa proteger as pessoas desta entidade demoníaca.

Possuídos é um filme surpreendente.Talvez um dos melhores filmes de terror realizados nos anos 90. Na verdade, é tão surpreendente que você só percebe que havia algo a descobrir quando o filme acaba. Pois este não é um policial como Os Suspeitos ou Copycat. Aqui, você já sabe quem é o assassino, como ele age e até mesmo imagina como o detetive deve resolver a questão. E, no entanto, ainda consegue ser pego de surpresa.

A partir de premissa interessante, a luta de Hobbes para derrota o demonio Azazel,o roteiro de Nicholas Kazan vai nos envolvendo em uma história tensa e mais complexa do que parecia inicialmente.Além de um roteiro extremamente inteligente e bem escrito, o filme conta, ainda, com a direção segura de Gregory Hoblit, que já realizou o também instigante As Duas Faces de um Crime, e com as atuações poderosas de Washington, John Goodman e Donald Sutherland (este último fazendo, mais uma vez, o tipo estranhamente suspeito que se tornou sua especialidade).

O filme não fez muito sucesso nos cinemas,na época de seu lançamento talvez por seu título brasileiro. Já deve existir mais de trezentos filmes com esse título. O título original, “Fallen”, na verdade faz menção a Azazel um “Anjo Caído”.

Existem duas sequencias, em particular, que me impressionaram bastante: aquela em que Washington é confrontado por diversos transeuntes que tocam uns nos outros para `transmitir` o espírito de Azazel e aquela em que a personagem de Embeth Davidtz é perseguida pelo `demônio` que, ao invés de simplesmente correr atrás dela, vai se deslocando através dos corpos das pessoas que estão andando na rua, como um efeito dominó. A cena é tensa e inventiva. Na verdade, é uma das melhores perseguições que já vi.

 O diretor Gregory Hoblit, que depois realizaria mais tarde o ótimo Alta Freqüência, com Dennis Quaid e James Caviezel, mostra uma perfeita habilidade ao unir a trama policial, com os acontecimentos sobrenaturais.

Possuídos ainda possui uma bela fotografia e uma excelente direção de arte (observem como o `tom` do filme vai mudando durante o transcorrer da história, de uma cidade clara e calorenta até o inverno sombrio das montanhas). Além, é claro, da música-tema Time Is On My Side, dos Rolling Stones, que é cantada por todos aqueles que entram em contato com Azazel.Ao final do filme, você já ouviu tanto essa canção que é quase impossível tira-la de sua cabeça.Além da letra da mesma ter uma mensagem do sarcasmo do proprio Azazel.

A edição nacional em Blu-Ray Disc, pela Warner Home Enterteinment, traz o filme no formato widescreen (16x9), com áudio DTS-HD Master 5.1 (em inglês) e Dolby Digital (em espanhol e português). Como extras traz apenas o trailer e comentários do diretor, do roteirista e do produtor. 124 minutos.

Merecia uma edição melhor.

Livraria Catarinense

O Homem Que Fazia Filmes – Howard Hawks

No mundo de Howard Hawks, ou seja, no mundo retratado em seus filmes o que mais ele explorava era a competição e o companheirismo do mundo masculino, um exemplo clássico pode ser visto em Onde Começa o Inferno (Rio Bravo).

Durante 43 anos este mestre fez um filme por ano, transitando pelos mais variados gêneros, mas seus preferidos eram as comedias e os filmes de ação.

No inicio de sua carreira já podemos ver a criação do “universo Hawks” em Patrulha da madrugada (The Dawn Patrol) de 1930, um dos seus primeiros filmes sonoros, no qual ele retrada o dia a dia de uma esquadra que sobrevoa as trincheiras da Primeira Guerra Mundial já vemos cenas de ação muito avançadas para a época, sendo as mesmas quase um estado da arte.
Mas o grande segredo de Hawks não esta nas cenas de ação e sim nos seus diálogos, em Patrulha da madrugada é através do dialogo que um grupo de soldados bêbados e briguentos descobre o companheirismo.

Em Delirante (The Crowd Roars) de 1932, ele retrata a ação e a convivência dos pilotos de corrida com cenas fantásticas.

Mas neste mesmo ano ele faz seu clássico filme de Gangster – Scarface, A vergonha de uma Nação (Scarface) – mais tarde refilmado por Brian de Palma com Al Pacino. O filme era vagamente inspirado na vida de Al Capone, e estrelado por Paul Muni e George Raft. Uma das cenas mais famosas do filme acontece entre Muni e Ann Dvorak, no papel de sua irmã na qual intencionalmente Hawks sugere uma relação incestuosa. Este foi também o filme que deu fama a George Raft.

Hawks declarou que ao contrario de outros diretores nunca trabalhou sob o contrato de um único estúdio, pois queria ter a liberdade de recusar um trabalho se não gostava do mesmo ou pelo menos ter a liberdade de fazer as alterações que ele julgava necessárias.

Em 1934, ele queria fazer Suprema Conquista (Twentieth Century), sua primeira comédia pastelão, baseada na peça de Charles MacArthur e Ben Hecht , dois de seus roteiristas favoritos. O filme seria estreado pela então jovem atriz Carol Lombard e o veterano John Barrymore escolhido pelo próprio Hawks, que o convenceu a fazer o papel.

Hawks teve grande sucesso com a comedia, Levada da Breca (Bringing Up Baby) de 1938, estrelada por Katharine Hepburn e Gary Grant onde ambos estão envolvidos com uma onça que gera muitas confusões.

Em 1939, Hawks volta a ação misturada a comédia, em Paraiso Infernal (Only Angels have Wings),onde  Geoff Carter (Cary Grant) é proprietário de uma pequena e falida companhia aérea na América do Sul. Esta companhia transporta correio da cidade portuária de Barranca na Colômbia, sobre as montanhas da Cordilheira dos Andes. Bonnie Lee (Jean Arthur) é uma pianista que quando chega a cidade se apaixona por Carter, apesar de sua profissão perigosa; Bonnie resolve ficar em Barranca (não a convite de Carter, como ele insiste em dizer). Aqui temos o confronto de um homem com a tipica mulher criada por Hawks, decidida, inteligente e engraçada.

Em Jejum do Amor (His Girl Friday - 1940), Hawks volta a comedia. Esta também é estrelada por Gary Grant mas no lugar de Hepburn temos Rosalind Russell. O filme mostra o choque entre Walter e Hildy que são dois jornalistas que trabalham no mesmo jornal e acabam de se divorciar. Hildy vai até o jornal pedir demissão e avisar que está noiva e vai se casar no dia seguinte. Mas Walter não aceita e pede a ela que escreva uma última grande história sobre o assassino Earl Williams, enquanto ele ganha tempo para usar todos os seus truques para separar o casal.Este filme é um triunfo de ação, dialogo, misantropia e o filme mais excêntrico e engraçado de Hawks.

Sargento York (Sargento York) de 1941, estamos nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial e Hawks faz um filme em homenagem aos heróis da Primeira Guerra. Não é um filme típico de Hawks, pois York é um personagem solitário, um homem que luta com sua própria consciência para poder vencer o inimigo. Alvin C. York é um fazendeiro que luta para sobreviver da terra infértil na qual vive. Alvin sonha comprar terras num sítio mais fértil, sendo que o seu pai tinha esse sonho e não o conseguiu concretizar, apesar de ter trabalhado muito para isto.Alvin torna-se então um religioso e em 1917 quando os americanos entram na 1ª Guerra Mundial e milhares de homens vão alistar-se Alvin nega-se, pois crê que toda aquela guerra é inútil e desumana. Ele não se apresenta no exército, declarando-se que isto vai contra a sua consciência. O pastor Pile tenta convencer o exército que as convicções religiosas de Alvin deveriam impedi-lo de ir para a guerra, mas o exército não reconhece a igreja de Pile como entidade religiosa oficial. Então Alvin acaba por ir, sem imaginar que isto iria modificar sua vida para sempre.


Pulamos agora para 1944 com Uma Aventura na Martinica (To Have And Have Not). Este filme conforme conta o próprio Hawks surgiu de uma aposta. Hawks queria muito que Ernest Hemingway, escreve roteiros para ele, mas Hemingway não queria. Assim Hawks sugeriu que pegaria seu pior livro e o adaptaria para o cinema e Hemingway disse que não havia como transformar o livro em um filme. Outra vitoria de Hawks neste filme foi contra Bogart, para o qual disse que pegaria uma atriz e a faria ser mais insolente que ele, coisa que Bogart achava impossível. Uma Aventura na Martinica foi um sucesso tão grande que o estúdio pediu um novo filme para Hawks com a dupla Bogart/Bacall.

Então dois anos depois temos À Beira do abismo (The Big Sleep) um dos melhores filmes de Hawks na opinião deste que vos escreve. Baseado no livro de Raymond Chandler. Segundo Hawks foi neste filme que ele fez uma grande descoberta “você não precisa ser muito lógico, só tem que fazer boas cenas”, com um roteiro escrito  em 8 dias a 4 mãos por William Faulkner, Leigh Brackett que disseram para Hawks que não iriam alterar o que fora escrito, pois estava tão bom que não havia razão de torna-lo lógico.E Hawks acatou a decisão.

Em 1948 Hawks volta ao mundo masculino e em seu primeiro western uma obra prima do velho oeste. Rio Vermelho (Red River), estrelado pelo eterno cowboy John Wayne, que fez uma parceria tão boa com Hawks como Grant havia feito nas comedias. O filme relata a história da primeira condução de gado pela chamada Trilha de Chisholm, do sul do Texas até Abeline no Kansas, em 1865. No caminho, o dono do gado tentará resolver o conflito com seu jovem filho adotivo (Montgomery Clift), que se rebela contra a tirania do pai.

Em 1949 ele volta a dirigir uma comédia amalucada, intitulada A Noiva Era Ele (I Was a Male War Bride). Desta vez Ann Sheridan foi a coadjuvante de Gary Grant. Nesta historia o Capitão Henri Rochard(Grant) é um oficial designado para trabalhar com a tenente Catherine Gates (Sheridan) na França. Após de uma série de desventuras malucas, eles se apaixonam e se casam. Catherine logo recebe ordens para retornar aos Estados Unidos e Henri quer voltar com ela. Mas, enquanto o Exército tem um protocolo rígido para lidar com "noivas de guerra", não há uma lei semelhante para homens que se casam com pessoas do sexo feminino do Exército, de modo que a fim de seguir sua nova esposa para os Estados Unidos, Rochard tem de disfarçar-se de mulher.

Outra comedia de Hawks feita em 1952 O Inventor da Mocidade (Monkey Business), estrelada também por Grant ao lado do ícone mais glamoroso de Hollywood,uma diva legítima, Marilyn Monroe.
Esta é mais uma malucada comédia, na qual uma secretária voluptuosa e seu chefe bonitão não conseguem impedir um rebuliço em suas vidas após um chipanzé preparar acidentalmente uma fórmula que devolve a juventude.


Chegamos então a Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), o ápice de Hawks em matéria de western. De um lado está um exército de pistoleiros de aluguel espreitando a cadeia na tentativa de libertar um assassino. Do outro, está o xerife John T. Chance (John Wayne) e seus dois assistentes: um ex-beberrão em recuperação (Dean Martin) e o outro um velho manco e reclamão (Walter Brennan). Ao lado deles também estão um jovem rápido no gatilho (Ricky Nelson) e uma mulher com um passado sombrio (Angie Dickinson), mas cujo coração palpita por Chance. O diretor Howard Hawks elevou o western às alturas com Rio Vermelho. Capturando a verdadeira imagem do Oeste bravio com um elenco estelar e na melhor forma, ele repetiu a façanha. Neste filme também figura Walter Brennan um dos atores favoritos de Hawks.

Posso dizer que este talvez seja o maior tributo de Hawks ao mundo e aos seus maiores valores, o profissionalismo dedicado, à amizade entre os homens , ao herói que vai contra todas as possibilidades pois acredita nestes valores.
Assim era Howard Hawks um homem que contava historias, com ironia e indiferença, as vezes com risadas, as vezes com a mais dura realidade.  Hawk fazia filmes como poucos em Hollywood.

Filmografia:

1970 - Rio Lobo
1966 - El Dorado
1965 - Red Line 7000 (Faixa Vermelha 7000 ou Traço vermelho 7000)
1964 - Man's Favorite Sport? (O esporte favorito dos homens)
1962 - Hatari!
1959 - Rio Bravo (Onde Começa O Inferno)
1955 - Land of the Pharaohs (Terra dos Faraós ou Vale dos Reis)
1953 - Gentlemen Prefer Blondes (Os homens preferem as louras)
1952 - O. Henry's Full House (Páginas da Vida) 
1952 - Monkey Business (O inventor da mocidade)
1952 - The Big Sky (Céu aberto)
1951 - The Thing From Another World (O Monstro do Ártico - (não creditado)
1949 - I Was a Male War Bride (A Noiva era Ele)
1948 - A Song Is Born (A Canção prometida)
1948 - Red River (Rio Vermelho)
1946 - The Big Sleep (À Beira do abismo)
1944 - To Have and Have Not (Ter e não ter)
1943 - The Outlaw (O Proscrito ou O fora da lei) (não creditado)
1943 - Air Force (Águias Americanas)
1941 - Ball of Fire (Bola de fogo)
1941 - Sergeant York (Sargento York)
1940 - His Girl Friday (Jejum de amor)
1939 - Only Angels Have Wings (Paraiso Infernal)
1938 - Bringing Up Baby (Levada da Breca)
1936 - Come and Get It (Meu filho é meu rival)
1936 - The Road to Glory (Espelhos d'alma ou O caminho da Glória)
1936 - Sutter's Gold ) (não creditado)
1936 - Ceiling Zero (Heróis do ar)
1935 - Barbary Coast (Duas almas se encontram)
1934 - Twentieth Century (filme) (Suprema conquista)
1934 - Viva Villa! (uncredited)
1933 - The Prizefighter and the Lady (não creditado)
1933 - Today We Live (Vivamos hoje)
1932 - Tiger Shark (O tubarão)
1932 - The Crowd Roars (Delirante)
1932 - La Foule hurle
1932 - Scarface
1931 - The Criminal Code (O código penal)
1930 - The Dawn Patrol (Patrulha da madrugada)
1929 - Trent's Last Case (Quem é o culpado?)
1928 - The Air Circus
1928 - Fazil
1928 - A Girl in Every Port
1927 - Paid to Love
1927 - The Cradle Snatchers
1926 - Fig Leaves

1926 - The Road to Glory

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Morre o cinema

Dizer que o cinema morreu com a morte de Herbert Holetz poderá parecer, à
primeira vista, afirmação hiperbólica. Morreu sim, em parte, em Blumenau e em outras cidades. Ele gerenciou cinemas aqui (Busch e Blumenau), em Gaspar e Joinville.
Herbert tomava café, almoçava e jantava cinema, portanto, convivia com ele 24 horas por dia. Já escrevi isto algumas vezes. Da mesma maneira, afirmei que virei cinéfilo já no berçário. Mas ele me superou e quanto!
Doente, mais grave na segunda metade de 2013, preocupava-se com o andar do seu Cinearte, projeto comemorando 10 anos de vida, instalado na Fundação Cultural de Blumenau. Fundou-o com o objetivo maior de levar ao público, gratuitamente, clássicos, filmes raros.

Jorge, seu filho, contou-me que, num domingo à tarde, teria dito: - “Preparem-se que vou embora logo. Ontem, recebi visita de uns amigos que virão buscar-me”. Brincando, imaginamos quem seriam esses amigos. Gary Cooper, John Wayne, Gregory Peck, Errol Flynn, por certo.

Afinal, a vida inteira respirou cinema. Preferia os filmes antigos, dessa turma citada aí em cima. Para os novos, torcia o nariz. Para ele, não se fazia mais cinema como antigamente. Uma e outra exceção: A última sessão de cinema, Cinema Paradiso (cujo protagonista, Alfredo, tinha muito a ver com nosso herói blumenauense)...

Com o aparecimento da televisão, mesmo preocupado, dizia que não temia a concorrência. Naquela época, os filmes eram lançados comercialmente e somente muito tempo depois alcançavam o vídeo. Holetz, num cartaz de um faroeste, acrescentou: “Este filme só será exibido na televisão daqui a 3 anos!”. Hoje, tal expediente seria inútil. A produção estreia na tela grande, e, quase de imediato, sai em DVD e pra telinha é um já.

Entendia que a sétima arte oferece muito mais do que a tela pequena: “Oferece tudo. Imagem, emoções, sentimentos. Dentro do cinema, você pode viver muitas coisas que na própria vida não poderia nem ver nem viver”. Para ele, o cinema continuava sendo a melhor, a mais instrutiva e a mais barata de todas as diversões.

A jornalista Magali Moser, no livro A vida pelo cinema – Herbert Holetz entre a realidade e a ficção, acha que após uma trajetória de lutas, conquistas e decepções, Holetz só iria sossegar quando o Museu Histórico de Cinema se tornasse realidade.


Coluna Prosa e Verso para o dia 16 de novembro

Gervásio Tessaleno Luz

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

MEMÓRIA ETERNA

Marilyn Monroe deve estar cantando Parabéns Pra Você para Herbet Holetz hoje, da mesma forma como fez para o ex-presidente John F. Kennedy. A musa do cinema era uma das “amigas” que o cinéfilo blumenauense fez durante os anos que viveu e sonhou a sétima arte. O primeiro aniversário após a morte, no dia 19 de setembro, é apenas mais um dos momentos oportunos e necessários para trazer à memória esta figura importante para a cultura do Vale, que completaria hoje 79 anos, mais de 60 deles dedicados à causa da sétima arte. A vida que se entrelaçou de maneira inseparável ao cinema tem continuidade atualmente com a manutenção do Cine Arte, criado por seu Holetz, e do arquivo deixado por ele na Fundação Cultural de Blumenau.

O Cine Arte em 2013, como conta o filho do cinéfilo, Jorge Holetz, foi todo programado por ele, com cada filme sendo escolhido a dedo. A manutenção do projeto, segundo o presidente da Fundação Cultural de Blumenau, Sylvio Zimmermann, é garantida para o ano que vem. A fundação busca reforçar a divulgação e está em conversas iniciais para avaliar se a segunda-feira continua sendo o melhor dia para as sessões. A partir do ano que vem a programação do Cine Arte continuará a ter sob o comando um representante da família Holetz. O filho Jorge, em parceria com o escritor e amigo Gervásio Luz, será o responsável pela organização.

– Ele dizia que queria preservar essa oportunidade de as pessoas assistirem aos clássicos do cinema. É esse legado que eu pretendo preservar – comenta Jorge.

Ele conta que o pai costumava dizer que fora infectado pelo vírus do cinema. É fácil perceber que esta “doença” era contagiosa. Além do próprio filho, contaminou outras pessoas. Em um e-mail enviado a Jorge, um amigo cinéfilo comenta que sempre que vai ao cinema gosta de imaginar seu Holetz em uma das cadeiras da sala.

Já o material colecionado por Holetz durante toda a vida está guardado na Fundação Cultural de Blumenau, que fará um processo de catalogação técnica do arquivo. O filho Jorge lembra que entre os cartazes, equipamentos e recortes há preciosidades como um álbum com fotos de artistas autografadas, por exemplo. Além disso, o cinéfilo é homenageado em uma das salas da fundação com uma exposição (foto) que segue até o fim do ano e que traz projeções e imagens da vida de seu Holetz.

Fonte: Jornal de Santa Catarina
14/11/2013 | N° 13038CONTRACAPA | Vinicius Batista
vinicius.batista@santa.com.br

domingo, 3 de novembro de 2013

Dramas e melodramas

Mergulho em profundidade na natureza humana, o drama difere do melodrama, cujo objetivo principal é apenas comover a plateia. No primeiro, os conflitos vivenciados pelos personagens recebem um tratamento artístico, elaborado. A emoção que invade o espectador é consequência dessa abordagem. Já nos melodramas, a meta procurada é apenas despertar o choro na plateia. E, com isso, acaba resvalando no piegas. Houve época em que o sucesso das novelas de televisão era medido pela quantidade de lágrimas que eram capazes de provocar. Tanto que uma parcela expressiva do público (masculino principalmente) fazia questão de manifestar certo desprezo pelo gênero. No Cinearte da FCB, poderemos ver (ou rever) essas joias (apenas Moulin Rouge é produção britânica, as demais vêm dos Estados Unidos):




O retrato de Jennie (1948), dia 4 – Ebem Adams é um pintor fracassado. Sua vida muda radicalmente quando conhece a bela Jennie. Ela se torna sua musa inspiradora, fazendo com que ele conheça o sucesso. Inicia-se um romance que desafiará sem fronteiras do tempo e da vida. Atuações perfeitas de Joseph Cotten e Jennifer Jones, par também em Duelo ao sol. Ganhou o Oscar de melhores efeitos especiais. Em preto-e-branco.




Moulin Rouge (1952), dia 11 – Biografia meio ficcional de Toulouse-Lautrec (José Ferrer que ganhou o Oscar de melhor ator em Cyrano de Bergerac), o famoso pintor francês da Belle-Époque, refletindo o mundo boêmio de Paris, através de algumas de suas figuras famosas. O filme, praticamente dividido em duas partes, apresentando as duas mulheres que teriam interferido na vida amorosa do artista aleijado, é um bonito painel das cores impressionistas que animaram a pintura e os meios artísticos da época.





Em cada coração, um pecado (1942), dia 18 – No início do século XX, as vidas de dois rapazes e três garotas são marcadas por acontecimentos trágicos e paixões avassaladoras, numa pequena cidade do interior dos EUA. Quem abstrai os tempos contemporâneos muito provavelmente assistirá com grande prazer e lágrimas a essa fita em que Ronald Reagan (futuro presidente dos Estados Unidos) teve o seu maior desempenho. Concorreu ao Oscar de melhor fotografia em preto-e-branco.






Férias de amor (1955), dia 25 – Um vagabundo (William Holden, magnífico) chega clandestinamente de trem a uma cidadezinha do Meio-Oeste americano à procura de um ex-colega de faculdade para pedir emprego. Mas acaba causando profundas transformações na vida de todas as pessoas com quem se relaciona, em apenas 24 horas. Kim Novak está belíssima nesse melodrama em deslumbrante Technicolor.

Coluna Prosa e Verso                Gervásio Tessaleno Luz

domingo, 13 de outubro de 2013

O espadachim Flynn

Embora tenha estrelado faroestes de porte, Errol Flynn (1909-1959) notabilizou-se como ator em filmes de capa e espada. O genial cineasta húngaro Michael Curtiz (1888-1962), um dos grandes técnicos do cinema de ação e aventura é o responsável direto pelo surgimento do mito Errol Flynn. Mais que um artesão competente, Curtiz foi o cineasta responsável pelo estupendo Casablanca. Nos quatro filmes deste mês, todos dirigidos por ele, o irlandês Errol Flynn tem a companhia de Olívia de Havilland (de... E o vento levou) nos três primeiros.

Capitão Blood (1935), dia 7 – O médico inglês Peter Blood indispõe-se com o rei Jaime II, e é injustamente condenado por traição à coroa britânica. Vendido como escravo, vai trabalhar na Jamaica, onde lidera uma rebelião e se torna pirata no mar do Caribe. Luta contra os invasores espanhóis. Flynn repete o papel de corsário em outro clássico do gênero, O gavião do mar, que será exibido dia 28.

A Carga da Brigada Ligeira (1936), dia 14 – Durante a guerra da Crimeia, um oficial do Exército britânico, o conde de Cardigan, que tinha velhas contas a acertar com o potentado turco, resolve adotar uma estratégia arriscada e deflagra um ataque contra as posições russas, em 1854. O filme tem muita ação e uma produção muito bem cuidada. Passou à história do cinema por ter sido um dos primeiros em que o ótimo ator escocês David Niven (A volta ao mundo em 80 dias) aparece em um papel significativo.

A Estrada de Santa Fé (1940), dia 21 – As aventuras que cercaram a construção da grande ferrovia de Santa Fé. Algumas cenas de ação e os atores (incluindo o futuro presidente Ronald Reagan) são o que há de melhor nesse filme. Faroeste a ser direcionado não só para os amantes do gênero, mas aos fãs da aventura de qualidade, sobretudo quando ela tem a participação de um trio de sucesso – o diretor Curtiz e o casal Errol Flynn e Olívia de Havilland – que realizaram clássicos como As aventuras de Robin Hood.


O Gavião do Mar (1940), dia 28 – Versão do clássico capa e espada baseado em livros de Rafael Sabatini (já filmado em 1924) e em que a Warner Bros repetiu a fórmula de Capitão Blood. O Capitão Geoffrey Thorp, no comando da galera inglesa Albatross, combate os espanhóis a serviço da Rainha Elizabeth e vive romance com Dona Maria (Brenda Marshall), filha do embaixador espanhol Don José Alvarez de Cordoba (vivido por Claude Rains, o inescrupuloso chefe de polícia em Casablanca). Eletrizantes cenas de batalha naval. Todos os filmes foram rodados em preto-e-branco.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Herbert Holetz

HERBERT HOLETZ

Com muito pesar, perdemos um grande conhecedor de cinema. Herbert Holetz era um homem que amava o cinema e fez disso a sua vida. Foram anos no Cine Busch, de lanterninha a gerente. Anos depois, passou a promover os filmes no Cine Arte da Fundação Cultural de Blumenau. Me lembro do primeiro filme que vi no Cine Arte – era outubro de 2003. E então passei a compartilhar da amizade com um homem culto e inteligente. Conhecendo o senhor Holetz, me senti aprimorando meus conhecimentos sobre a maravilhosa sétima arte. Muitos grandes nomes do cinema fazem falta e com certeza o senhor Holetz é um deles.

João Cláudio Pereira

Cobrador - Blumenau

sábado, 21 de setembro de 2013

Morreu Herbert Holetz

“A vida não é como se vê no cinema. A vida é mais difícil”. 
A frase é do projecionista Alfredo, no clássico Cinema Paradiso, mas bem que poderia ser de autoria de Herbert Holetz. Hoje mais do que nunca. Apesar de as despedidas serem inevitáveis, é difícil suportar a dor quando a partida é pra nunca mais voltar.
 Não era apenas a paixão ilimitada pelo cinema que fazia de Holetz aguém admirável. Apesar do vasto conhecimento nesse mundo da ilusão, não gostava de holofotes e insistia em dizer que sabia pouco. Preferia o anonimato e esforçava-se por passar despercebido. Mas aquele homem esguio de cabelos brancos, sempre impecavelmente vestido com calça de prega e camisa social, não conseguia esconder a popularidade no vai-e-vem pela Rua XV de Novembro, em busca de novos filmes ou cartazes para o acervo
. Respirava cinema por todos os poros e tinha na arte o oxigênio da própria vida. Depois que o conheci pessoalmente, numa sessão do Programa Cine Arte, em 2004, tive a certeza de estar diante de uma daquelas raras pessoas extremamente humanas e sensíveis, cujo amor pelo o que fazem as torna difíceis de serem compreendidas aos olhos da multidão.
 Durante toda nossa convivência, ouvi dele a ansiedade com a instalação do Museu de Cinema em Blumenau. Holetz se despede sem ver concluído um sonho, mas deixa uma lição de amor e entusiasmo de quem nunca desistiu da paixão que o fazia se sentir vivo.

Texto ; Magali Moser

Herbert Holetz e as Taras de Helena

Morreu o Herbert Holetz, o sujeito mais apaixonado por cinema que conheci.

Aliás, vamos dizer que seja um dos dois: também conheci e conversei com o Walter Mogk, que criou o Cine Mogk e fez ele mesmo, prensando, uma a uma, uma a cada dia, todas as cadeiras do cine que criou.

Conheci o Herbert ainda quando era repórter policial do Santa, há uns 30 anos. Ele era gerente do Cine Bush.

Holetz era um sujeito sério, como todo bom alemão da época, mas eu fazia piadas com ele sobre as pornochanchadas que o Cine Bush passava nos horários tardios. “Ô Holetz, fui levar minha mãe no cinema à meia noite de sábado e estava passando As Freiras Devassas. Isso é uma afronta à moral e aos bons costumes”.

Holetz sempre vinha me cumprimentar e eu aproveitava para brincar com ele: “Holetz, a gente podia produzir um filme eu e tu. Coisa de altíssimo nível, melhor que os filmes do Ingmar Bergman. Vai se chamar As taras de Helena”.


Acabamos ficando amigos.
Alguns jornalistas da época pediam cortesia para o cinema, ou furavam a fila e entravam com a carteira de imprensa.

Ressalte-se de que isso era como fumar, era algo aceito, visto com naturalidade. Era uma espécie de direito adquirido da imprensa.

Mas eu era burro, meio turrão. Me recusava a fazer isso. Ficava na fila e pagava como todo mundo.

Holetz me dava ingressos de vez em quando. Nunca pedi e acabava passando-os a alguém.
Quando ia ao Cine Bush, eu ficava na fila.

Uma ou duas vezes o próprio Holetz veio me pegar pelo braço no meio da fila: “Já falei que tu não precisa pagar”.

Bem, aí eu entrava, mas a culpa era dele…

Grande Holetz, um sujeito pacato, com grande conhecimento de cinema, mas sem ser esnobe nem chato.


Se eu o reencontrar um dia, o Holetz que se prepare: ainda não desisti de filmar com ele “As Taras de Helena”.

Autor: Carlos Tonet

Personagem Principal

Protagonista do cinema em Blumenau, Herbert Holetz deixa herança de dedicação e amor aos filmes
Quando uma paixão é grande demais, ela pode durar toda uma vida, sem jamais perder o brilho. Foi assim com Herbert Holetz, memória e protagonista do cinema blumenauense. Mesmo nos últimos dias de vida, das forças que encontrava para falar rendiam histórias e lembranças cinematográficas. De olhos fechados, quando o sonho vinha à tona, a imaginação projetava seus filmes e personagens favoritos.

O jornalista e escritor Gervásio Luz conhece, pelo menos, uma dúzia de histórias sobre aquele que considera “uma entidade do cinema em Blumenau”. Com um sorriso triste no rosto, lamenta a morte do amigo:

– O romantismo do cinema morreu com ele. Holetz tomava café, almoçava e jantava cinema. Quando dormia, sonhava com os personagens dos seus filmes favoritos. Os amigos e a família do Holetz, além dos parentes, eram Cary Grant, Greta Garbo, James Dean, Marilyn Monroe... – diz Luz.

Por volta da 1h10min de ontem, a cultura blumenauense ficou órfã: Herbert Holetz foi embora. Aos 78 anos, o cinéfilo mais querido da cidade estava debilitado. Em outubro de 2012, teve diversas quedas e, durante uma cirurgia para reparar o fêmur quebrado, sofreu acidentes cerebrais vasculares (AVC).

Passou os últimos 15 dias internado no Hospital Santa Catarina. Lá, recebia visitas frequentes da esposa, Lori, com quem era casado há mais de 50 anos, e dos três filhos e quatro netos. Segundo o primogênito, Jorge, as conversas sobre cinema eram frequentes, mesmo nos últimos dias de vida do pai:

– Mesmo não conseguindo formar algumas frases direito, por causa das sequelas do AVC, ele ainda encontrava forças para falar dos filmes que amava tanto. Eu gosto de dizer que o meu pai não era um cara teimoso, era um cara obstinado. E ele foi assim até o último instante.

A obstinação nasceu quando ainda era criança, ao ser levado pela mãe a uma sessão pela primeira vez. Assim como o protagonista do clássico filme italiano Cinema Paradiso, Holetz era um menino quando decidiu que o cinema faria parte de sua vida para sempre. Na adolescência, teve contato com Reynaldo Olegário, do Cine Garcia, que o ensinou mais sobre a arte. Persistiu até conseguir trabalhar como lanterninha do Cine Busch, aos 17 anos. Tudo para assistir aos filmes. Por lá, trabalhou por 40 anos, onde foi desde lanterninha até gerente. Depois que o Cine Busch fechou as portas, em 1993, Holetz não foi mais ao cinema em Blumenau.

Sessão de cinema: um ritual

O filho Jorge não chora, por mais que os olhos se encham de lágrimas ao falar do pai. Em vez disso, o sorriso e a voz cheia de orgulho tomam conta dele, enquanto desfia elogios e conta histórias sobre a vida de Holetz:

– O maior desgosto dele foi quando eu trouxe um VHS para casa. Era sempre muito difícil fazer com que ele se adaptasse a essas mudanças do cinema, sabe? A arte corria pelas veias dele, era um amor de outro mundo – diz, emocionado.

Quando o assunto era uma sessão de cinema, conta ele, Holetz era severo: gostava de silêncio, respeito e disciplina. Para o cinéfilo, era como se a exibição do filme fosse um ritual sagrado.

– Ele não gostava, por exemplo, que mascassem chiclete durante o filme. Bagunça, então, nem pensar. Meu pai tinha um respeito muito grande pela sétima arte – relembra Jorge.

A diretora do Patrimônio Histórico e Museológico da Fundação Cultural, Sueli Petry, não hesita: diz que o amigo vai fazer muita falta.


– O Herbert era apaixonado pelo que fazia e também pela Fundação Cultural. Ele doou todo o acervo de filmes para nós, que está à disposição de qualquer pessoa. Para nós, a despedida dele representa a perda do conhecimento, da dedicação e do amor à arte de um grande homem – declara Sueli. (Colaborou Vinicius Batista)

Autora: CAMILA IARA

Fonte: Jornal de Santa Catarina

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Carta aberta a Herbert Holetz

Somente quem conheceu tua sensibilidade e teimosia para saber a falta que farás! Ainda lembro com detalhes de nosso encontro, em 2004, quando propus tua biografia como meu trabalho final de conclusão de curso, transformada em livro dois anos depois. Tua resistência inicial foi difícil de vencer. Somente a delicadeza de tua querida companheira Lori foi capaz de driblar tua desconfiança diante desta então estudante. Dias depois, a confirmação de que havias aceitado o convite chegou com um cartão e uma caixa de bombons. Foi o início de uma convivência ilimitada e única.


Os encontros intermináveis na Fundação Cultural ou na tua casa estarão sempre na minha lembrança, além das várias fitas cassetes que registraram os depoimentos. Tua família me acolheu como integrante. Sou incapaz de esquecer a reação de tua filha Regina quando estavas hospitalizado na UTI, no início deste ano. Indagada pela recepcionista sobre qual meu grau de parentesco contigo, ela respondeu sem titubear: “ela é filha, filha postiça!”. E era assim que eu me sentia e como me sinto agora, órfã de ti.

Por várias vezes, ouvi dizeres que querias ter um milhão de amigos. Bastava caminhar contigo pela Rua XV de Novembro para reconhecer teu carisma. Mas nem sempre foi assim. Pra muita gente foi difícil entender tua paixão obsessiva pela sétima arte. Eu vi tu te desdobrares tantas vezes para atender a vontade de um colega que queria assistir àquele filme raro. Não sabias dizer não.

Hoje, olhando pra trás, eu percebo que há mais semelhanças entre nós do que eu imaginava. E agradeço a ti, admirável Holetz, por teres me permitido abrir a porta de tua memória para que pudesse contá-la. Como já disse o poeta Drummond, “de tudo fica um pouco”. De ti, ficou em mim a dedicação pelo trabalho e a paixão pelo cinema. E acima de tudo uma prática de vida coerente com teus princípios. Ficou também um pouco de ti em cada um dos que tiveram a sorte de te conhecer ou conviver contigo.

Vá em paz, Holetz, com a certeza de que cumpriste uma jornada admirável por aqui!


Com carinho, Magali*

*Magali Moser é jornalista e autora do livro A Vida pelo Cinema: Herbert Holetz entre a Realidade e a Ficção

Fonte: Jornal de Santa Catarina - 20/09/2013 | N° 12991

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

HOMENAGEM A HERBERT HOLETZ, DEFENSOR DO CINEMA BLUMENAUENSE

Faleceu nesta madrugada o cinéfilo blumenauense Herbert Holetz. Apaixonado pela sétima arte, foi um dos maiores defensores do cinema em Blumenau, atuando durante toda a sua vida para nutrir e divulgar a paixão da cidade pela cultura. Holetz faleceu esta madrugada, dia 19 de setembro, aos 78 anos.

Ainda criança, descobriu sua paixão ao assistir, acompanhado de sua mãe e seus irmãos, sessões de “O Gordo e o Magro”, “Tarzan” e os desenhos animados de Walt Disney. Já na adolescência, conheceu Reynaldo Olegário, gerente do Cine Garcia, que lhe ensinou os segredos da sétima arte. Para poder assistir ao máximo de filmes possível, fez uma parceria com o cinema: auxiliava o púbico para situá-los em suas poltronas e, em troca, assistia ao longa-metragem.

Esta paixão cresceu se desenvolveu, e se refletiu diretamente em sua vida profissional. De lanterninha, Holetz passou à gerência do Cine Busch, onde atuou por mais de 40 anos. Após o fechamento do cinema, passou a colaborar como voluntário na Fundação Cultural de Blumenau. Doou filmes em película, cartazes, filmadoras e projetores. Para organizá-los, trabalhou voluntariamente no arquivo histórico durante sete anos, até que passou a ser contratado para iniciar o projeto Cine Arte da Fundação Cultural. O projeto segue firme há 10 anos, ainda mantendo a programação idealizada por Herbert Holetz.


Em sua despedida, a Prefeitura de Blumenau e a Fundação Cultural relembram a bela trajetória do querido senhor Holetz, cuja vida foi permeada pelas histórias da grande tela. Fica a lembrança e o agradecimento a este homem que sempre colocou a generosidade e a gentileza em cada pequeno gesto, deixando sua marca na história de Blumenau e compartilhando seu patrimônio mais precioso: a cultura.

Autor: Fábio Ricardo

Familiares e amigos se despedem do cinéfilo Herbet Holetz, que morreu na madrugada desta quinta, em Blumenau

Familiares e amigos se despedem do cinéfilo Herbet Holetz, que morreu na madrugada desta quinta, em Blumenau. O Corpo está sendo velado na capela mortuária da Paróquia Luterana, no Centro, e o enterro será às 16h
Familiares, amigos, colegas de profissão, artistas e figuras da cultura blumenauense prestam uma última homenagem a Herbert Holetz, que morreu na madrugada desta quinta-feira, em Blumenau, aos 78 anos. Na capela mortuária da Paróquia Luterana, no Centro da cidade, as lágrimas se misturam aos sorrisos quando as lembranças do cinéfilo vêm à tona.

_ Ele tomava café, almoçava e jantava cinema. Era um apaixonado. Quando dormia, Holetz sonhava com os personagens dos seus filmes favoritos _ diz o escritor e jornalista Gervásio Luz, amigo de Holetz.

O enterro será às 16h30min, no cemitério da paróquia. Holetz estava internado há 15 dias no Hospital Santa Catarina, depois de sofrer um AVC durante uma cirurgia para reparar a quebra do fêmur. Ele deixa a esposa, Lori, com quem era casado há mais de 50 anos, três filhos e quatro netos.


Fonte: JORNAL DE SANTA CATARINA

Foto:  Gilmar de Souza  /  Agência RBS